Globo Repórter – Trabalho em Família – 29/08/25
A história de Noélia Chaves da Paixão, 48 anos, poderia ser parecida com a de muitas mulheres apaixonadas por futebol, mas a amazonense de Manaus escolheu um caminho diferente: em vez de jogar, ela se tornou árbitra assistente, e hoje, divide o campo com o próprio filho, Hugo Agostinho, de 28 anos. Entenda
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Desde criança, Noélia já gostava de futebol, mesmo sem o apoio da família. “Minha mãe dizia que futebol era coisa de homem. Cheguei a apanhar por isso”, relembra. Aos 12 anos, começou a jogar sem medo. Mais tarde, decidiu seguir carreira na arbitragem.
“Quando vim pra Manaus, deixei tudo pra trás: casa, filho, conforto. Vim começar do zero. Foi difícil”, relata.
Mãe solo, ela criou Hugo praticamente sozinha. E foi justamente ele quem se inspirou na trajetória da mãe para seguir o mesmo caminho.
Hugo inicialmente não gostava de futebol e até criticava a escolha da mãe. No começo, ele não se via naquele ambiente e chegou a duvidar da vocação de ambos, mas em 2015, incentivado por Noélia, ele se inscreveu no curso de arbitragem e, aos poucos, desenvolveu uma verdadeira paixão pelo esporte.
“Eu criticava o futebol. Achava que não era pra mim, nem pra ela. Hoje, respiro futebol”, diz Hugo
Atualmente, mãe e filho atuam juntos em partidas oficiais, dividindo o campo e a responsabilidade. Para Noélia, o momento de entrar em campo representa uma mudança de ambiente, onde as preocupações do lado de fora ficam para trás e o foco passa a ser o trabalho. Hugo compartilha da mesma sensação, descrevendo a experiência como emocionante e cheia de adrenalina.
Apesar da sintonia, os dois enfrentam desafios específicos. No primeiro jogo juntos, a preocupação mútua atrapalhou o desempenho. Foi preciso uma conversa franca para que ambos decidissem focar no básico e confiar no próprio preparo.
“No primeiro jogo, eu só pensava nela. E ela em mim. A gente parou e decidiu fazer o simples. Feijão com arroz dá certo”, lembra Hugo.
A caminhada de Noélia na arbitragem também foi marcada por preconceitos. Ela começou na profissão aos 34 anos e ouviu de representantes locais que preferiam pessoas mais jovens. Além disso, enfrentou comentários machistas tanto fora quanto dentro de campo.
“Ouvi que era velha, que mulher devia estar na cozinha, mas lugar de mulher é onde ela quiser”, afirma.
Hugo também precisou aprender a lidar com o comportamento da torcida em relação à mãe. No início, reagia de forma impulsiva, mas com o tempo entendeu que Noélia sabe se impor e resolver seus próprios conflitos. Ele reconhece a força da mãe e afirma que ela coloca todos — atletas, treinadores e até o próprio filho — em seus devidos lugares.
A rotina de treinos da dupla é intensa. Hugo corre entre 5 e 12 km por partida, enquanto Noélia acorda às 3h da manhã para percorrer até 22 km, além de fazer fortalecimento muscular à tarde e treinos leves à noite. Mesmo morando em casas separadas, os dois mantêm uma relação próxima, treinam juntos e compartilham os desafios da profissão.
O maior sonho de Hugo é chegar à Série A do futebol brasileiro e, quem sabe, conquistar o escudo da FIFA. Noélia acompanha tudo de perto e afirma que o sonho do filho também é o dela. Por conta da idade, ela já não tem mais perspectivas de avançar na carreira, mas se dedica a apoiar Hugo em cada passo.
“O sonho dele é o meu. Vou estar sempre ao lado dele, torcendo e ajudando a crescer”, ressalta a mãe
A história dos dois é marcada por afeto, superação e uma paixão compartilhada pelo futebol — uma paixão que, como eles mesmos dizem, está no sobrenome da família.
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Mãe e filho após mais uma partida de futebol
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Mãe e filho são árbitros no futebol amazonense
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