Com esclerose múltipla, servidora pública aposta na prática de atividades físicas no AC
“Ao receber o diagnóstico você chora, se descabela, sofre um pouco, mas depois é a hora de conversar com o médico, escolher o tratamento adequado e fazer os exames que tem que fazer”.
Moradora de Cruzeiro do Sul, no interior do estado, a funcionária pública Eclésia Messias e Silva, de 46 anos, descobriu que é portadora de esclerose múltipla (EM) há dois anos e sete meses, após sentir episódios de dormências.
Ao g1, ela contou como foi o diagnóstico, o tratamento e também como vive com a doença que, para ela foi assustadora no início, mas que agora é só mais um ponto de sua vida.
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“Eu sou a prova de que a pessoa consegue ter uma vida normal, tranquila, com poucas limitações. No início, é muito assustador, mas depois você aprende a lidar, a ouvir o seu corpo”, contou ela.
O Dia Nacional de Conscientização da Esclerose Múltipla é celebrado neste sábado (30), reforçando a importância de dar visibilidade à doença e combater preconceitos.
A doença pode atingir pessoas de todas as idades, mas é observada entre os 20 e 40 anos de idade, com uma incidência maior entre as mulheres. (Veja detalhes sobre a esclerose mais abaixo)
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Desconfiança inicial
Aos 45 anos, Eclésia já havia se livrado da obesidade e praticava exercício físico. Em um determinado dia, ela começou a sentir dores e dormências. Como já havia sido diagnosticada com hérnia de disco, acreditava que o que sentia era decorrente da doença.
“Eu era obesa mórbida e vinha no processo perdendo peso há muito tempo sem bariátrica, sem remédios. A atividade física já fazia parte da minha vida e comecei a sentir uma dormência no polegar e nos dois dedos seguintes. A dormência passou para a cabeça, depois pro braço, foi subindo, começou a aumentar e chegou até o couro cabeludo”, afirmou.
A funcionária pública decidiu então agendar uma consulta com o ortopedista, pois acreditava que a situação se dava pelo hérnia de disco.
“Na hora que ele viu que estava dormente na cabeça, já disse que não era na coluna cervical, porque se fosse, não passava do pescoço para cima. Então, ele me encaminhou para o neurologista”, disse.
A esclerose múltipla pode afetar a visão, a fala, os movimentos e causar formigamentos ou dormência
Reprodução/ Fantástico
Descoberta após exames
O diagnóstico não foi tão simples. Inicialmente, acreditavam que Eclésia estava tendo um acidente vascular cerebral (AVC) e ela precisou ser atendida de urgência para evitar o pior.
“Quase fui internada e então fiz uma ressonância na cabeça. O exame mostrou as manchinhas no meu cérebro, que os médicos chamam de lesões. Aquilo me deixou apavorada, porque só o nome ‘esclerose múltipla’, para quem não tem conhecimento, apavora mesmo”, explicou.
Para que o diagnóstico fosse definitivo, ela foi encaminhada a outro médico que solicitou uma série de exames.
“Fiz teste de sensibilidade nas mãos e nos pés até chegar no último, que foi a punção lombar, onde retiraram o líquido da minha coluna. E foi assim que deu positivo. Com o diagnóstico na mão, fiquei assustada, mas eu acho que por já ter passado por muitas coisas, eu sempre encarei de frente e foi o momento que eu disse: ‘sim e agora, o que que eu preciso fazer?'”
Eclésia Messias correu a prova de atletismo Volta Internacional da Pampulha após o diagnóstico de esclerose múltipla
Arquivo pessoal
Adaptações pós-diagnóstico
Após a descoberta, Eclésia disse que ao se informar sobre o que poderia ocorrer com ela, teve medo de parar de andar e ter que usar bengala. Além disso, suas pesquisas mostraram que mulheres com a doença poderiam ter incontinência urinária.
“Deixei de comer carne vermelha, então tudo que era inflamatório eu parei de fazer 100%, fiquei até uns seis primeiros meses sem comer [carne]. Fiquei bem assustada e pensava: ‘não posso fazer isso, não posso fazer aquilo’, mas depois dei uma relaxada. Vou tentar ter uma vida normal e só evito algumas coisas”, expôs ela.
Eclésia ressaltou a importância de ter uma vida balanceada quando se tem uma doença autoimune para que as crises não sejam constantes.
“Minha vida mudou muito pouco, porque eu já vinha de um cenário bem ajustado de atividade física, alimentação e sono. O mais difícil da esclerose hoje é lidar com o calor aqui no Acre. Estresse, falta de atividade física e alimentação, todas essas coisas podem causar inflamação no organismo, piorar a doença e ocasionar um novo surto”, pontuou ela.
Ela descreveu ainda que após a descoberta, encarou a doença e mesmo mais cautelosa e observadora, decidiu não mudar tanto sua vida por conta disso.
“Todo dia de manhã você acorda e tem que observar seu corpo para saber se tem um novo sintoma e se esse pode ou não ser um indício da piora da doença. Tudo meu tem que ser muito controlado. Eu tenho que observar meu corpo o tempo todo e tenho que me conhecer. Não é uma doença fácil de lidar, mas também não é um bicho de sete cabeças”, disse.
Médico especialista fala sobre esclerose múltipla
Fases
Após o diagnóstico, a funcionária pública já teve momentos difíceis. Um deles foi quando ela teve uma uma dormência na perna e perdeu um pouco da força no membro. Ela explicou que todas essas situações e descobertas fazem parte do processo vivido por quem tem a doença.
“Eu caminho perfeitamente, mas tenho uma certa dificuldade de levantar a perna. Perdi um pouco do equilíbrio. Se eu tirar um pé do chão, tenho dificuldade de ficar em pé e posso cair. Aí mudamos a medicação para uma mais forte. Por ser uma doença autoimune, também estou sujeita a ter gripes, infecções, porque a minha imunidade fica baixa”, complementou.
Para quem está suspeitando ou que tenha feito a descoberta da doença recentemente, Eclésia pontuou que é importante procurar outras pessoas que têm a mesma doença, para a construção de uma rede de apoio.
“Não é um diagnóstico de morte, não é uma doença que você vai morrer. Você consegue viver com ela a vida inteira tranquilamente […] quando você procura pessoas que também têm a doença e essas pessoas entendem o que você passa, é mais fácil lidar com isso. As pessoas têm filhos e se casam. É só uma questão de controlar e cuidar de algumas coisas”, assegurou ela.
Diagnóstico de esclerose múltipla é mais comum em mulheres
A doença
O neurocirurgião acreano Luan Messias é o médico que acompanha Eclésia e definiu a que a esclerose múltipla é quando as células de defesa do corpo atacam os neurônios de forma errada.
“O sinal que passa pelo neurônio é de forma incorreta e ele acaba não funcionando. Sendo mais objetivo, é uma doença em que o sistema imunológico ataca por engano a mielina, que é a capa protetora dos nervos no cérebro e na medula espinhal”, disse ele.
O médico afirma que quando essa capa se danifica, a comunicação entre o cérebro e o corpo fica prejudicada, causando sintomas como fraqueza, dormência, dificuldades para andar, problemas de visão e cansaço.
“O diagnóstico é levantado inicialmente com uma boa conversa com o paciente. Depois, se faz ressonância magnética de crânio, que vão apresentar pequenas lesões inflamatórias no cérebro por causa desse ataque”, explicou ele.
Posteriormente, é colhido um liquor da medula espinhal para analisar e, neste líquido, são encontrados sinais de inflamação e anticorpos anormais, o que confirma o diagnóstico.
Luan sinalizou ainda que o tratamento para a doença é feito de três formas:
Tirar a pessoa da crise neurológica, tomando um remédio para controlar a doença;
Tomar um remédio frequentemente para não ter novas crises;
Tomar atitudes para evitar novas crises como atividade física, boa alimentação, fisioterapia e psicólogo (por ser uma doença difícil);
O neurocirurgião assegurou que o terceiro ponto é o mais importante para que a pessoa viva por mais tempo e com maior qualidade de vida.
“A doença ainda não tem cura. O tempo de vida reduz em 5 a 10 anos. Mas a boa adesão [do tratamento] impede que a pessoa tenha muitas sequelas e dá mais qualidade de vida a ela”, disse ele.
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